Bantu Machine
Bantu Machine
O verdadeiro salto consiste em introduzir invenção à existência. Em Bantu Machine, Hamilton Borges exemplifica de maneira lírica e contundente essa máxima comumente atribuída a Frantz Fanon. Mas na verdade ela é a própria essência da condição e do processo da negritude nesse planeta. Inventar outra existência é preciso porque o antropoceno, alicerçado nos conceitos modernos do Humano e do Social, existe -- e se exaure -- às custas de vidas negras. Enraizado em tradições reinventadas e profundas, e ao mesmo tempo alçando os seus imperativos transcendentais, Hamilton nos oferece uma ficção de virtuosidade imaginativa e
concretude social. Essa ficção concreta é formatada por uma vida dedicada a pessoas
negras e suas espiritualidades, organizações comunitárias, e campanhas políticas -uma vida de insistência, poesia, e proposição. Concreta nas suas especulações, a narrativa de Hamilton expõe de modo preciso a futilidade de as pessoas negras tentarem a assimilação, a aceitação, o reconhecimento, ou mesmo a tolerância. Para adentrar a sociedade, os universos do Homem e do Social, e o aparato do estado, a pessoa negra tem de negar a sua origem e sua presença plena. Tanto a sociedade quanto o estado são essencialmente organizados contra a vida negra. O conceito do Humano moderno expulsa as pessoas negras da família Humana. O Humano é parasita da negritude e das pessoas negras, tornando-as não pessoas e consumindo-as até sua morte.
João Costa Vargas , Professor da Universidade da Califórnia, Riverside
