Libido Dendê e Melanina
O livro do escritor baiano Hamilton Borges1, Libido, Dendê e Melanina apresenta um investimento do autor no tema do erotismo, pouco divulgado e estudado na literatura afro-brasileira e na literatura brasileira em geral. O erotismo esteve sim presente na literatura na modalidade oral e escrita, canônica ou não, porém sempre foi revestido de um moralismo cristão ocidental que tornava o tema parte de conversas e leituras privadas e cochichadas entre homens. Assim a literatura erótica se constituiu majoritariamente como produzida e consumida por homens que faziam do corpo da mulher mero objeto de seus desejos recônditos e inconfessáveis.
Santas ou putas, as representações das mulheres eram/são fixadas em estereótipos que jogavam luz sobre peitos, bunda e vagina; já outras representações, aliando o racismo ao sexismo, animalizavam/animalizam as mulheres negras, reduzindo-as a serviçais ou expressão de puro instinto sem qualquer racionalidade ou agência.
Libido, dendê e melanina procura romper com o paradigma de representação da mulher como objeto de desfrute dos homens; o escritor cria personagens negras que fogem dos padrões estabelecidos pelas sociedadetradicional. Rompem com qualquer naturalização do sistema binário sexual masculino feminino, buscam a satisfação de seus corpos desejantes e decidem assumir seus desejos, sua libido sem amarras ou fronteiras. As mulheres realizam fantasias que não se inscrevem na heteronormatividade naturalizada: quebram hierarquias, tomam a iniciativa nas propostas a parceiras e parceiros, descobrem e satisfazem a potencialidade de seus próprios corpos, assumindo papel explicitamente ativo no jogo erótico.
(...)Destaco ainda o teor crítico e metalinguístico do conto “Silenciar o texto” que descreve o processo de criação da personagem e sua concepção da literatura como grito de recusa e resistência ao silenciamento imposto diante das formas de violência, inclusive policial, ou da hipocrisia do academicismo. A narradora parece trazer a imagem da produção literária como parte do jogo erótico em que tesão e escrita se confundem e complementam-se: “sou uma tiazinha louca por sexo e eu trepo, meu amor. Escrevo e trepo, trepo e escrevo”. Ela fala de sua participação nas atividades de poesia de rua na cidade de Salvador, dos textos de escritores negros e escritoras negras contemporâneas, tornando a produção e apreciação literária e o jogo erótico um só ato de prazer. ( Florentina Souza, Florentina Souza é Doutora em Literatura Comparada pela UFMG e professora do Instituto de Letras da UFBA, com atuação nos Programas de Pós-graduação em Literatura e Cultura e Estudos Étnicos e Africanos. )
